Tuesday, November 3, 2009

Halloween

A campainha toca... abro a porta e uma série de bruxinhos esbugalham os olhos na minha direcção:

"Doçura ou travessura?" - Disseram em coro

"Bom... aqui em casa terá que ser travessura!" - Respondi

Os bruxinhos entre-olharam-se incrédulos. Muito atrapalhados não tinham reacção. Observei o vão das escadas. Uma mãe divertida espreitava lá ao fundo quase imperceptível. Olhei-os de novo. Eles continuavam atrapalhados, até que a maiorzinha arriscou:

"Bem... podem ser bolachas..."

E o sorriso voltou a brilhar nos pequenos bruxos, agora com a esperança de se terem "safo".

"ok, bolachas de menina... das dietas eu tenho!"

O blerghh foi geral. Ainda assim fui à dispensa, e encontrei-lhes dois pacotes de bolachas integrais de maçã e passas. Eles estenderam o cesto, e um mini corajoso informou-me que não gostava de maçãs verdes e passas. Os outros concordaram. Mas lá foram felizes e contentes "assombrar" o resto dos moradores do prédio.

A Mariana diz que eu estraguei o halloween das crianças...

Sunday, October 25, 2009

Carta de Orfeu a Eurídice

I
Assim os vivos também se tornam fantasmas: Bato-lhes à porta da alma, vagueio num descampado de sentimentos, chamo-os - e vejo-os partir. Construo a solidão com os pedaços das imagens que me deixaram. Ergo edifícios a partir de memórias, de palavras, de gestos que ficaram das nossas conversas, quando o tempo se reduzia ao instante que vivíamos, e nenhum futuro nos impunha a sua sombra. Agora, porém, a que estação te irei buscar? Em que banco de jardim te irei surpreender, olhando essa manhã que marca a separação dos amantes? Limito-me a esperar que esta porta se abra, uma vez mais, e a Primavera entre para este quarto onde a noite se instalou.

No entanto, és tu que eu quero guardar neste canto onde as aves fugiram. Sei que um pressentimento de Outono fez cair todas as folhas, deixando à vista o horizonte seco como esse espelho onde nada se reflecte, com o seu descanso mais negro. Será isso aquilo a que se chama amor? Ouve: os murmúrios que nascem de uma entrega de corpos, por entre os silêncios da casa, ou então sobrepondo-se a um vago ruído de chuva, nos vidros, enquanto o desejo corre pelos teus lábios como a nuvem mais frágil do destino. E ainda: a música quem impões a plenitude de uma recompensa, como se ela pudesse durar mais do que o tempo que nos é imposto? Dizes-me: um dom doloroso. Mas o que é o amor senão esse trabalho de renúncia e entrega, a lenta bebida que nos impregna com o seu veneno, e nos concede a única vida possível?

Então, regressa da tua ausência; ou dá-me ao menos a tua sombra, para que ela me cubra com esse manto de obstinação que só os tristes arrastam.

II
Aqui é o centro. Onde a solidão me impregna com o seu sudário de lodo, e a humidade dos fundos desce pelos vidros da noite, apagando as imagens amadas. No entanto, parto esses vidros para ver o que ficou para trás: que a alquimia de sensações corre ainda por esses campos onde avanças, com a falsa convicção do amor, levando-me atrás de ti até ao limite de onde não há regresso? Que abraço de corpos sobrevive no chão seco de palavras, enquanto te levantas da memória, e o teu rosto se iliumina por entre brilhos da manhã?

Parece-me que é tarde para acertar as coisas que deviam ter sido feitas: ajustar as peças do presente nessa mesa onde se acumulavam copos e papéis; separar as questões que os dedos escondiam das respostas que entravam pela boca do desejo, até um êxtase de mãos e de olhos. Contei as queixas, transformei-as na mais doce das celebrações, arrastei o instante atè à berma da eternidade: e trouxe de volta a mais dolorosa das ilusões. De cada vez, porém, era único esse tempo nascido de uma partilha de lugares; e não dei pelo vento que soprava de dentro da vida, levando em direcções diferentes os passos que nos juntavam.

O futuro pertence aos cegos da imaginação; as suas paisagens estendem-se por esses caminhos que não voltaremos a seguir, até aos arbustos do horizonte. Não ouço nenhuma voz nos pórticos que se abriam para a mais efémera das alegrias - a que se confunde com um rosto incessante no interior da alma, a pura inscrição do amor. Guardo-te aí flor matinal, esperando que a água da vida te refloresça, e uma nova vibração te devolva à ilusão do presente. O centro é este: o lugar do encontro, onde os deuses nos roubam ao acessório, e um todo se fixa no que é aparente, e passa.

Nuno Júdice in "Pedro, Lembrando Inês"

Thursday, October 15, 2009

Torre de Babel

Não consigo escrever só porque sim. Quando escrevo, transcrevo sempre um turbilhão de sentimentos. o turbilhão que nessa fracção de segundo está a passar cá dentro. A trespassar. Cada palavra, cada frase, é recheada de algo profundo, tão profundo que talvez seja necessária a compreensão de outra mente perturbada.

Mas este é o meu ser, esta sou eu sem tirar nem por. Preenchida por uma torre de Babel de frases, palavras, letras... que podem desmoronar a qualquer momento. 

Era aqui que eu não queria voltar.

Era aqui...